Em tempos de instabilidade global, a arte continua sendo uma força resiliente — não apenas como expressão cultural, mas também como ativo econômico e motor de transformação social. Eduardo Costantini, fundador do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba), é um dos nomes mais emblemáticos dessa visão integrada entre paixão, estratégia e compromisso com a cultura.
Em recente entrevista ao Valor Econômico, o empresário argentino compartilhou reflexões contundentes sobre o papel do colecionador, os desafios de manter uma instituição cultural privada e a importância de saber comprar arte.
“Arte é uma especialidade”, afirma Costantini. “É preciso se educar, buscar informações, ouvir especialistas. O gosto pessoal é só uma parte.”
Para Costantini, o bom colecionador não compra por impulso, mas por critério. A aquisição certa pode preservar valor ao longo do tempo — tanto simbólico quanto financeiro. Ele relembra o caso emblemático do marchand Jean Boghici, que nos anos 1960 comprou o “Abaporu” de Tarsila do Amaral por cerca de US$ 5 mil. Hoje, a obra é ícone do modernismo e peça central do acervo do Malba.
Criado em 2001, o Malba é uma instituição única: é sustentado 100% por recursos privados de Costantini, que cobre pessoalmente o déficit anual, estimado em US$ 3 milhões. Mesmo em um cenário econômico adverso, ele ampliou sua atuação com a criação do Malba Puertos, novo espaço cultural com reserva técnica, galeria, restaurante e programas educacionais.
“O museu é um templo moderno”, diz. “As pessoas vêm para se conectar, se acalmar, aprender e confiar.”
A entrevista também destaca o papel da arte como indústria. O setor movimenta milhares de empregos e atrai turismo — só o Malba recebe cerca de 500 mil visitantes por ano. A nomeação do brasileiro Rodrigo Moura como diretor artístico também marca um passo para a internacionalização da coleção, com exposições no exterior e publicações bilíngues sobre arte latino-americana.
O depoimento de Costantini é um lembrete poderoso: colecionar arte não é apenas adquirir objetos, mas construir narrativas. É investir em memória, em identidade, em valor cultural — e, muitas vezes, em um futuro que vai muito além da lógica do mercado.
Em um mundo acelerado, a arte oferece pausa, profundidade e permanência. E pessoas como Costantini mostram que, com visão e responsabilidade, é possível transformar o gosto pessoal em legado coletivo.
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