Lady Gaga é muito mais do que uma popstar — ela é uma artista no sentido mais completo da palavra. Sua estética, desde o início de sua carreira, se constrói como uma colagem viva de referências artísticas que atravessam séculos, estilos e movimentos. Ao observar sua trajetória visual, é impossível não enxergar ecos de obras que vão de mestres renascentistas até os expoentes da arte contemporânea.
Desde os trajes exagerados até suas encenações dramáticas, Gaga parece canalizar o espírito do Barroco europeu. Pense em Caravaggio: o uso dramático da luz e sombra (chiaroscuro), a teatralidade das poses e a intensidade emocional — todos elementos que encontramos tanto em vídeos como “Bad Romance”, quanto em aparições públicas suas cuidadosamente coreografadas.
O Surrealismo também pulsa forte na estética da artista. Em performances como a do VMA de 2009, onde sangra no palco, ou em visuais que distorcem e ampliam o corpo humano, Gaga nos remete diretamente a Salvador Dalí, especialmente em seus retratos deformados e visões oníricas. As próteses faciais usadas no álbum Born This Way, por exemplo, lembram as formas alteradas das figuras em obras como “A Persistência da Memória”.
Lady Gaga transformou a moda em meio expressivo. Seu icônico vestido de carne (sim, carne real) é um exemplo de arte performática que dialoga com os limites do corpo e da representação. Aqui, o diálogo com Leigh Bowery é inevitável — artista e performer dos anos 80 e 90 que utilizava o corpo como escultura viva, com figurinos absurdos e perturbadores.
A colaboração com Alexander McQueen, outro nome crucial, foi um divisor de águas em sua estética. McQueen, que unia moda, dor, beleza e morte em suas criações, ecoa nas escolhas visuais de Gaga, como nos desfiles ou no clipe de “Alejandro”, onde o drama e a iconografia religiosa criam imagens que poderiam facilmente estar em uma instalação de Bill Viola.
Lady Gaga também abraça o universo da Pop Art, especialmente no diálogo entre arte e consumo. Sua encarnação de persona e alter egos lembra o jogo de imagem e identidade proposto por Andy Warhol, com quem Gaga compartilha a obsessão por fama e iconografia pop.
No campo contemporâneo, Gaga se aproxima de artistas como Marina Abramović, com quem já colaborou. A performance centrada no corpo, no limite emocional e físico, e na interação com o público são pontos de encontro entre as duas. Em seu projeto ARTPOP (2013), Gaga propôs explicitamente um diálogo entre arte e pop, inclusive promovendo um “artRAVE”, evento que misturava música, performance e artes visuais.
A estética de Lady Gaga é, em última análise, uma colagem pós-moderna de ícones e fragmentos. Cada look, cada clipe, cada performance é um palimpsesto onde se sobrepõem referências a Frida Kahlo, Klaus Nomi, Yayoi Kusama, Matthew Barney, e tantos outros artistas que usaram o corpo, a cor, a forma e o conceito como maneira de expandir os limites da arte.
Lady Gaga não apenas consome a história da arte: ela a incorpora, a distorce e a reinventa em uma performance contínua de si mesma. E, ao fazer isso, transforma o mainstream em um espaço onde a arte, mesmo a mais ousada, pode florescer — ainda que sob os holofotes de um palco pop.
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